sábado, 20 de dezembro de 2014

Rafael Gasparini X Chico Sofista - O que é e o que não é Ciência?

§1 - Cada debatedor tem direto a no máximo 3 postagens (de 4096 caracteres cada uma) por participação - QUE DEVERÃO SER UTILIZADAS DA MELHOR FORMA POSSÍVEL POR CADA UM DOS DEBATEDORES. 

§2 - Os debatedores DEVERÃO fazer 4 participações intercaladas por duelo:considerações iniciais, réplica, tréplica e considerações finais. 

§3 - O prazo regulamentar entre as participações dos debatedores é de 3 dias. Todo adversário tem o direito de estender o prazo de seu oponente. Após o prazo, será declarada vitória por W.O. para o duelista remanescente. 


§4 - Após o duelo, o vencedor será escolhido através de votações em enquete.

22 comentários:

  1. Saudações ao duelista.

    Começo esclarecendo que infelizmente não é possível servir-me do atual método científico para a minha exposição, porque é justamente ele que estou colocando em questão. Então utilizarei estas CIs como uma reflexão a respeito das fontes de todos os nossos conhecimentos, a fim de chegar naquilo que entendo que o método científico deveria ser com o fim de conseguir obter esses conhecimentos de forma certa, e aí comparar o status quo atual com esse modelo e realizar a minha crítica. Eu não espero obter aqui a perfeição argumentativa, mas antes espero que essa discussão possa contribuir para o aperfeiçoamento da minha argumentação sobre este importante assunto, especialmente em razão das críticas que poderão advir.

    Inicio então com a pergunta: o que é Ciência? Em todos os tempos até aproximadamente o início do século XX ninguém teve dúvidas a respeito do significado deste termo. CIÊNCIA é simplesmente CONHECIMENTO.

    E todo conhecimento precisa referir-se à VERDADE, porque algo manifestamente falso, ou que não temos certeza que é verdadeiro, não pode ser chamado de conhecimento, e menos ainda de Ciência, donde podemos afirmar que a Ciência se ocupa da REVELAÇÃO DE VERDADES. Dizer que estamos de posse de um CONHECIMENTO, ou de uma CIÊNCIA, é o mesmo que dizer que estamos de posse de uma VERDADE.

    No que se refere ao conhecimento, podemos proferir os seguintes juízos:
    - possibilidade (ou impossibilidade);
    - realidade (ou irrealidade);
    - necessidade (ou contingência, possibilidade da não-existência).

    Quando nada sei a respeito de algo do mundo, digo simplesmente que a coisa é POSSÍVEL. Se descubro que algo existe, digo que é REAL. E se descubro a respeito de algo cuja não-existência é impossível, digo que é NECESSÁRIO. E claro que há os juízos complementares opostos, que nada mais são do que as “outras faces das mesmas moedas”: a impossibilidade nada mais é do que a necessidade, a irrealidade é a realidade, e a contingência é a própria possibilidade, todas aplicadas às teses opostas.

    Só como exemplos destes tipos de juízo, podemos dizer:
    1. É POSSÍVEL que exista vida microrgânica em Europa (lua de Júpiter);
    2. A existência de corvos negros é REAL;
    3. É NECESSÁRIA a relação pitagórica no triângulo retângulo (se aplica a todos, sem exceção).

    Qual é então o verdadeiro papel da Ciência em seu sentido amplo (que tratarei por “Ciência”, com “C” maiúsculo)? O papel da Ciência é converter, FUNDAMENTADAMENTE, todas as possibilidades em realidades/irrealidades ou em necessidades/impossibilidades. Somente quando puder dizer, fundamentadamente, que algo é real, irreal, necessário ou impossível é que posso afirmar que estou de posse de um conhecimento desse “algo”.

    Desse modo, todos os erros da Ciência, em todos os tempos, sempre se deram pela confusão destes juízos, ao considerarmos:
    - o que é apenas possível como real/irreal ou necessário/impossível;
    - o real/irreal como necessário/impossível;
    - como ainda possível o que já foi determinado real/irreal ou necessário/impossível; ou
    - como apenas real/irreal o que já foi determinado como necessário/impossível.

    A Ciência (em sentido amplo) se subdivide em “Filosofia” e “ciência em sentido estrito” (que vou tratar daqui para frente como ciência, com “c” minúsculo).

    A Filosofia é o ramo da Ciência que cuida de transformar a POSSIBILIDADE em NECESSIDADE ou IMPOSSIBILIDADE mediante DEMONSTRAÇÃO.

    A ciência é o ramo da Ciência que cuida de transformar a possibilidade em REALIDADE OU IRREALIDADE mediante PROVAS EMPÍRICAS.

    A Filosofia é totalmente A PRIORI, pois se já sei que algo é necessário ou impossível, não me é requerido experiência alguma para determinar sua realidade ou irrealidade. Por exemplo, não é requerido que eu saia pelo mundo em busca de triângulos retângulos empíricos a fim de provar que o Teorema de Pitágoras é de fato verdadeiro.

    A ciência, pelo contrário, é totalmente a posteriori, porque se não posso determinar que a coisa é necessária ou impossível, se ela é em princípio CONTINGENTE, somente a experiência pode me dizer se é real ou irreal.

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  2. Não é necessário, por exemplo, que existam satélites em Júpiter. Suas existências são contingentes. Desse modo, apenas por observação eu poderia saber que eles se encontram lá e nunca a priori. Por isso a ciência é sempre EMPÍRICA, baseada na observação.

    Uma das confusões muito recorrentes na Ciência é a confusão dos papéis da ciência e da Filosofia, que começa com a confusão do que é contingente e necessário, e termina com uma investigação a priori do que deveria ser a posteriori, e vice-versa.

    Um legítimo conhecimento científico é composto sempre de uma matéria e de uma forma.

    A MATÉRIA é dada a posteriori, como já disse, por meio dos sentidos em uma experiência.

    Já a FORMA do conhecimento científico é filosófica, que deve preceder o empírico e lhe dar significação, e é o que compõe o que chamamos de Filosofia da ciência.

    Sem essa forma não poderíamos dizer que há realmente um conhecimento científico, visto que não entenderíamos porque ocorrem fenômenos. Sem a Filosofia da ciência, o conhecimento empírico não seria um conhecimento, mas uma mera percepção, sem nenhuma relação com outras percepções.

    É também à Filosofia da ciência que cabe dizer, A PRIORI, o que é e o que não é ciência. Por isso o objeto deste duelo é na verdade sobre Filosofia da ciência, e pretendo mostrar as confusões que fazem os filósofos da ciência ao tratarem do possível, do real e do necessário.

    À ciência, como já disse, cabe converter o contingente possível em realidade ou irrealidade mediante provas empíricas, e isso só pode ser feito por meio dos nossos sentidos em uma experiência.

    O problema é que determinados tipos de experiências são impossíveis para nós. Como então realizar a tarefa da ciência sem a experiência, sem nenhuma observação ou outra forma de detecção pelos sentidos? Impossível.

    E por que a ciência deveria investigar uma tese cuja impossibilidade de provar é manifesta (repare que essa “impossibilidade” é determinada pela Filosofia da ciência, a priori)? Não seria lícito então afirmarmos que teses assim se encontram fora do escopo da ciência, e que a ciência deveria investigar apenas aquilo que possui possibilidade (por mínima que seja) de provar empiricamente?

    A Filosofia da ciência então coloca um primeiro delimitador entre a ciência e a não-ciência:
    “A ciência refere-se à investigação de tudo aquilo cuja experiência é possível”.
    “A não-ciência refere-se a tudo aquilo cuja experiência é impossível”.

    E podemos ainda chamar de “PSEUDOCIÊNCIA” à investigação de todo o contingente cuja experiência é impossível.

    O conhecimento científico pode se dar por prova direta ou refutação. A prova direta atesta a realidade da tese. A refutação prova a irrealidade da tese.

    A REFUTAÇÃO e a PROVA DIRETA são, portanto, “duas faces da mesma moeda”. Provar diretamente uma tese é refutar (provar a irrealidade de) TODAS as antíteses. Porém, refutar uma tese é provar que PELO MENOS UMA das antíteses é real.

    Repare nos grifos acima. A prova da tese refuta todas as antíteses. Mas a sua refutação não prova necessariamente uma das antíteses, porque é necessário conhecê-las todas. Apenas saberei que uma das antíteses é real, mas não necessariamente saberei qual delas é real pela simples refutação da tese. Esse será o cerne da minha crítica ao falseacionismo.

    E tanto as tentativas de prova ou de refutação podem ser científicas como pseudocientíficas, a depender se a experiência é possível ou não.

    Desse modo, creio que posso arriscar definir aqui as teses como CIENTÍFICAS, SEMI-CIENTÍFICAS ou como NÃO-CIENTÍFICAS.

    A tese científica é aquela em que é possível um experimento tanto para a prova como para a refutação. Por exemplo, para a tese “fulano é culpado de um crime”, pode aparecer uma prova que mostre que o fulano realmente é culpado e o crime estará solucionado. Ou pode aparecer uma outra prova que refute a tese e mostre que aquele fulano é inocente. Porém, essa refutação não permitirá necessariamente solucionar a investigação do crime. Guardem isso. Curiosamente, quando a tese for científica, a antítese também sempre será.

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  3. A tese semi-científica é aquela em que é possível um experimento para a prova, mas não é possível um experimento para a refutação (ou vice-versa). Por exemplo, para as seguintes tese e antítese: “há vida fora da Terra” e “não há vida fora da Terra”. No primeiro caso é possível uma prova e impossível uma refutação, e no segundo caso é impossível uma prova e possível uma refutação. Da mesma forma, quando a tese for semi-científica, a antítese também sempre o será.

    A tese não-científica é aquela em que é impossível um experimento para a prova ou para a refutação e o assunto, definitivamente, não será do escopo da ciência, e nada que ela disser a respeito, a favor ou contra a tese ou a antítese, valor algum terá. Exemplos: “Deus existe”; “Deus não existe”; “a nossa vontade é livre”; “a nossa vontade não é livre”, etc... E igualmente, quando a tese for não-científica, a antítese também sempre será não-científica, e a investigação científica de ambas caracterizará uma pseudociência.

    Lembrando que o objetivo da ciência é converter (por meio de provas empíricas) uma tese possível em realidade ou irrealidade, podemos afirmar que as teses não-científicas serão, para nós, homens na Terra, PARA SEMPRE POSSÍVEIS, NUNCA PROVADAS E NUNCA REFUTADAS.

    O mesmo não se pode afirmar das teses científicas ou semi-científicas, pois é possível que um dia apareçam provas de sua realidade ou irrealidade.

    Como já disse e vou insistir reiteradamente, a fim de que não percamos isso de vista, A CIÊNCIA DEVE SE RESTRINGIR AO CAMPO DA EXPERIÊNCIA POSSÍVEL. Quando ela ultrapassa esse limite ela só se ilude e ilude a outros com falsas promessas de conhecimento transcendente, que nunca consegue realizar e muitas vezes não consegue abandonar. E me antecipando, cito uma crítica que me foi feita quando eu pus em questão o atual método científico, que tem avançado para além do campo da experiência possível, quando me foi dito o seguinte: “... Como eu disse, se não aceitas o Método Científico, então, siga em paz! Não te esqueças de tomar teus remédios, quando adoeceres, viu?”

    O que a crítica quis dizer é que os remédios que tomo e que são eficazes foram obtidos por meio da ciência utilizando o método científico, e que se eu não acredito nesse método, ainda assim não deveria rejeitar os produtos científicos obtidos a partir deste método, porque eles são eficazes. Só que reparem bem: se uma descoberta científica tem aplicação prática eficaz, é porque ela já é, por definição, objeto de uma experiência possível e não é o alvo da minha crítica. O QUE EU ESTOU CRITICANDO É JUSTAMENTE AQUILO QUE NÃO É OBJETO DE UMA EXPERIÊNCIA POSSÍVEL e, portanto, JAMAIS SERÁ OBJETO DE UMA APLICAÇÃO PRÁTICA EFICAZ, porque se não consigo nem experimentar, como então seria possível eu aplicar na prática? Portanto, entendo que esse tipo de crítica não se aplica a mim.

    O que eu quero que me demonstrem é como que algo, que não é determinado necessário nem impossível pela Filosofia, ou seja, que é contingente, pode ser declarado real ou irreal sem uma experiência ou uma observação que corrobore essa afirmação. E como o falseacionismo popperiano permitiu que algumas teses que NÃO SÃO objetos de experiência possível se apresentassem ao mundo como ciência, e mais ainda, como “verdades científicas até que se refute” (o que evidentemente nunca ocorrerá, porque suas antíteses também não são objetos de experiência possível), será ele o objeto principal da minha crítica ao chamado “método científico vigente”.

    Para isso será necessário explorar o modo como determinamos que uma tese é possível ou impossível de provar e/ou refutar, e na oportunidade criticar o que disseram alguns dos proclamados “filósofos da ciência”. O erro ou o acerto deles pode, como tudo o que concerne à Filosofia, ser demonstrado a priori e não depende da ciência em si nem do senso comum dos cientistas, mas antes será condição de toda a ciência que queira ser respeitada e prestigiada como tal.

    Passo a palavra para o meu opositor para as suas CIs.

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  4. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”. - Protágoras.

    Saudações amigos do grupo Duelos Retóricos e ao Rafael Gasparini! Novamente nos encontramos em um embate com um tema que tem a ver com epistemologia. Já faz um tempo que você defende seu ponto de vista e parece que o seu objetivo com isso está bastante claro, então não vou perder tempo batendo o martelo em pregos que já foram exaustivamente batidos. Ao invés disso, vou tentar argumentar de uma outra forma, tentando fazer você ver as coisas por um ângulo que talvez não tenha visto no passado.

    Pela forma como a discussão vai em nosso tópico paralelo do grupo no Facebook, não vai ser difícil convencer o resto do pessoal do grupo de que eu estou certo e você errado, pois o meu ponto de vista, pelo menos neste debate, é o mesmo da imensa maioria da comunidade científica e aparentemente o mesmo dos que leram os mesmos livros que eu. Repetir o que já disseram lá no tópico para vencer o debate seria como tirar doce de criança.

    Por isso, como guerreiro retórico, meu objetivo é muito mais ambicioso. Eu vou tentar, da melhor forma possível, compreender seu ponto de vista e o que foi que te levou a pensar as coisas da forma como pensa. Tendo isso em mente, vou tentar mostrar meu ponto de vista e se você for honesto e tentar fazer como eu, talvez até aprenda alguma coisa com este debate e não sirva apenas como tentativa de doutrinação das massas acéfalas das redes sociais que não compreendem o que pode ser ciência. Reconheço que não vai ser fácil e as chances de fracasso são muito maiores que as de vitória, mas, pelo bem da retórica, não custa tentar, não é?

    De acordo com sua introdução, você não reconhece os avanços que ocorrem em filosofia da ciência no último século, adotando uma postura dogmática (de acordo com o significado real do termo), cristalizada, do que “deveria ser” uma forma melhor para se obter conhecimento legítimo. Para você, o ser humano é capaz de conhecer “verdades definitivas” sobre a natureza, algo que nem Kant concordaria, pois soube separar muito bem a realidade fenomênica da realidade “em si”. A “Ciência” seria como uma “reveladora de verdades” (confesso que ri, quando li isso aqui, me desculpe).

    Nestes termos, um cientista mais que um profeta e a Ciência deveria ser procurada por todos, principalmente os cristãos, pois já dizia o messias que a Verdade (neste caso, a ciência) liberta quando é conhecida. Não é nem preciso dizer que discordo de quase todas as definições que você colocou em sua introdução, principalmente por que partimos de pontos de vista antagônicos. Para mim, o que move o mundo são as dúvidas. A curiosidade humana nos leva a tentar compreender o mundo, mas ela nunca se satisfaz, pois quanto mais sabemos sobre algo, mais dúvidas formulamos, o conhecimento nunca é preenchido.

    Já pra você, o que move o mundo são as certezas. Quando deciframos os enigmas que a natureza nos oferece, aí então avançamos e temos algo útil em mãos para poder seguir em frente. O problema é quando esse conhecimento é útil, mas incompleto. Talvez, se reformulado, poderia ser muito mais útil. Mas o problema é que o ser humano se convence fácil demais de que não pode estar errado (ainda mais quando iludido pela utilidade) e em diversos momentos da história da humanidade vimos vários conhecimentos legítimos não serem aceitos simplesmente por que contrariavam o conhecimento vigente até então.

    Essa necessidade de ter a resposta última para todas as perguntas levou a igreja católica a adotar Aristóteles (vejam só, um pagão) como referencial máximo de lógica a ser seguido sem contestação. O modelo de universo de Ptolomeu, adotado por Aristóteles, estava errado, e mesmo não existindo nada na Bíblia dizendo que nosso planeta tinha que ser obrigatoriamente o centro do universo, este tipo de ideia foi defendido e alguns até acabaram sendo prejudicados quando tentaram dizer o contrário, baseados em observações astronômicas.

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  5. Quando alguém que estudou o assunto diz que é possível obter-se conhecimento SEGURO a respeito da realidade, está querendo dizer que a previsão de alguns fenômenos é possível a partir de uma série de leis, que parecem se manifestar repetidamente em sistemas analisados isoladamente e comparados entre si. Este conhecimento pode ser SEGURO, mas nunca ABSOLUTO. Pois para ser seguro, ele deve ser NECESSARIAMENTE RELATIVO, passível de refutação e dependente de inúmeras análises, sob vários pontos de vista e onde TUDO está sujeito ao debate, pois TODOS admitem que não se pode conhecer verdades irrefutáveis sobre a realidade, pois se a história da humanidade nos provou algo até hoje, foi o fato de que somos especialistas em nos enganarmos.

    Imagine que tudo o que você sabe sobre a realidade seja mentira. Foram apenas estímulos químicos gerando percepções em sua mente de coisas que nunca existiram. Como em um esquizofrênico. Como é que você prova para um esquizofrênico que as percepções dele não são verdadeiras? Acaso a “verdade” dele não é baseada em evidências? E por que é que apenas evidências obtidas apenas da forma que VOCÊ resolveu confiar (as fontes certas, ditas pelas autoridades certas) são tidas como evidências e tudo o que os outros resolvem apostar, por estarem seguros de seus atos, não são evidências?

    A nossa percepção sensorial da realidade ocorre através do efeito de uma série de reações químicas é, que nada mais é que uma forma de tentar encontrar nas melhores mentiras, algo para se apoiar, pois não é possível de se conhecer a realidade, a ÚNICA COISA QUE VOCÊ tem acesso é à sua PRÓPRIA PERCEPÇÃO DA REALIDADE. É com ela que vai nascer e morrer. E como já diria Godel um sistema nunca pode provar a si mesmo como verdadeiro, por uma questão de postulado lógico, você JAMAIS poderá sugerir um sistema que apresente uma solução definitiva para o enigma da realidade, pois qualquer que seja a forma como você tenha resolvido analisar a realidade, você nunca estará analisando a realidade em si, apenas os próprios circuitos do seu cérebro, que jamais poderão ser reproduzidos, de maneira idêntica, em outro indivíduo que não seja você, no exato momento em que está se analisando.

    O conhecimento científico só é seguro JUSTAMENTE por que admite que a explicação da realidade é relativa e deve ser posta à prova da contradição de forma exaustiva e sistemática, para que possamos conhecer melhor o POUCO que sabemos, baseados em nossos LIMITADOS sentidos e equipamentos disponíveis para se analisar a natureza. Por isso a ciência trabalha com aproximações. Estatísticas. Tendências. Sem contar o fato que tudo isso pode ser manipulado para servir a interesses econômicos, políticos e ideológicos, como absolutamente toda invenção humana. Por isso, nós só podemos conhecer nossas mentiras, não existe nenhuma verdade.

    Isso não quer dizer que não podemos conhecer nossas mentiras e que isso pode ser MUITO ÚTIL. O problema todo está relacionado, no fim das contas, na utilidade da opinião. É óbvio que algumas opiniões são mais certeiras que outras, dependendo do assunto. O ser humano não possui “conhecimento absoluto” sobre absolutamente NADA que existe. Usando o princípio da falseabilidade, para destruir essa minha teoria, bastaria me mostrar PELO MENOS uma coisa sobre a qual o ser humano tenha conhecimento ABSOLUTO. Mas não é possível saber TUDO sobre nada, mesmo por que nossas perguntas só podem ir até onde nossos sentidos nos permitem.

    Mesmo a relação entre pontos e triângulos e até o exemplo do teorema de Pitágoras, que você vive repetindo, não passam de representações de circuitos em nossas mentes. Alguém poderia muito bem ter programado nossos cérebros para que isso parecesse lógico e verdadeiro, dando uma ilusão de verdade irrefutável, mesmo não tendo nenhuma correspondência com a realidade em si, que nos transcende. Confiar em nossos sentidos, e até mesmo em nossa lógica, pode ser muito útil, mas não representa necessariamente nada além daquilo que nossas limitações possam alcançar.

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  6. Durante toda a história da humanidade, os seres humanos têm procurado padrões infalíveis em suas observações da natureza, principalmente na intenção de procurar algum plano arquitetônico absoluto, registrado em tudo o que existe. Ou então para justificar nossas mais íntimas intenções de sermos sabedores de tudo que existe. De forma a separar o joio do trigo do conhecimento humano, a filosofia surgiu para tentar dar ao homem respostas mais satisfatórias para suas perguntas, de forma que este conhecimento pudesse ser útil.

    Faz parte da natureza humana especular sobre as coisas que ele não conhece, mesmo por que, imaginar respostas para as coisas faz parte do processo que vai um dia levar à verdadeira resposta. Mas também faz parte da natureza humana aceitar essas respostas, ainda que incompletas ou sem evidências que as sustentem. Da mesma forma que o espírito investigativo parece fazer parte da natureza humana, também parece existir uma tendência de que as pessoas continuem firmes acreditando nas mesmas coisas pelo resto de suas vidas. Em alguns casos, são capazes de morrer por essas ideias formadas, sem nenhuma comprovação de que elas são, de fato, reais.

    Por isso, quando estudamos a natureza, estamos muito mais compreendendo a nós mesmos do que a natureza em si, que está além dos nossos sentidos. Você, como ser humano, possui uma visão um pouquinho mais desenvolvida que os outros mamíferos, mas comparado com um número absurdamente gigantesco de artrópodes, somos praticamente cegos. Abelhas são capazes de perceber desenhos extraordinários em flores que só podemos perceber usando equipamentos que identificam freqüências extremamente baixas. Morcegos possuem sistemas de orientação espacial sofisticadíssimos, invejados pelos maiores estudiosos de engenharia. Esses animais percebem o mundo de formas como só podemos imaginar, pois está muito além daquilo que nossos sentidos nos permitem. E isso sem considerar a possibilidade de vida fora da Terra, e duvido que você duvide que as possibilidades para a forma como estes seres experimentam a realidade serem inexplicáveis para a atual cognição humana.

    Quando debatemos sobre algum assunto, nós avaliamos as razões uns dos outros. Pensamos, comparamos, criticamos, enfim, pensamos nas diversas formas de se resolver uma questão. Se suas razões são boas o suficiente para defender o que você defende, eu ficarei sem meios lógicos de discordar de você e não terei opções, a não ser acreditar no que você acredita. A razão é contagiosa e é possível reconhecê-la na discussão aberta e honesta de ideias. E é mostrando para as pessoas onde o raciocínio delas está errado que se muda o mundo, pouco a pouco.

    Com isso, despeço-me com minha introdução e aguardo sua réplica.

    Saudações do Chico Sofista!

    Abraços!

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  7. Vou começar pelo final de sua argumentação, onde diz:

    “Se suas razões são boas o suficiente para defender o que você defende, eu ficarei sem meios lógicos de discordar de você e não terei opções, a não ser acreditar no que você acredita.”

    Eu concordo com o que disse para uma razão desinteressada (coisa que não conseguimos ser muito facilmente neste mundo), porque quando estamos comprometidos com uma opinião prévia, seja lá por que motivo for, fazer com que mudemos das ideias antigas para as novas é tão difícil como fazer alguém mudar de religião. Um amigo meu costumava dizer que se a verdade por si só convencesse alguém, médicos não fumariam.

    Ninguém muda suas ideias do dia para a noite (pelo menos comigo nunca foi assim). Primeiro percebemos a nossa dificuldade de rebater os argumentos contrários aos nossos, depois tentamos encontrar rotas de fuga, ou seja, argumentos que consigam responder às dificuldades levantadas sem derrogar o nosso próprio argumento, depois passamos por uma fase de autoengano, julgando que a nossa antiga ideia ainda pode ser salva, com argumentos em geral falaciosos, apesar das fragilidades levantadas, e só por fim acabamos cedendo. Mas isso é um processo que pode durar anos (talvez transcenda vidas, caso vivamos outras), de modo que eu realmente me surpreenderia com o meu adversário se ao final deste duelo ele simplesmente dissesse “amém” e se rendesse à minha argumentação.

    Então não, o meu adversário dificilmente mudará a sua opinião, independente da minha argumentação, ainda que intimamente a reconhecesse como a mais lógica e coerente. A razão de ele ter escrito aquilo é preparar o seu leitor para as suas considerações finais, onde ele dirá que os meus argumentos não foram lógicos e consistentes o suficiente e que por isso não foram capazes de o convencer a mudar de opinião. Mas ele vai dizer isso de qualquer forma, seja a minha argumentação lógica e consistente, ou não.

    O que eu noto no discurso do meu adversário é um ceticismo profundo em relação à possibilidade da Ciência, que é um ceticismo que começou com David Hume e que foi incorporado por Popper na sua metodologia da Ciência. O problema é que Popper, ao invés de ser sincero em seu ceticismo, como o foi David Hume, ele buscou um caminho para lá de inusitado para tentar “salvar a Ciência”. Em uma das discussões no FB, me indicaram um artigo que explica como isso aconteceu, na página 12 do link abaixo citado:

    "Popper salvou a ciência com uma grande e brilhante explicação ad hoc (se a ciência não pode atingir a verdade, basta mudar o que se entende por ciência)."

    https://www.academia.edu/977000/Karl_Popper_contra_a_verdade_em_favor_da_raz%C3%A3o

    Grande e brilhante, mas infelizmente desonesto, porque fez com que as pessoas passassem a comprar “gato por lebre”. Não tenho lebres para vender no mercado, então pego gatos, mudo o significado do que entendemos por “lebre” para se aproximar do que entendemos por “gato”, e depois vendo gatos como se fossem lebres. E todo mundo fica feliz, porque afinal “gatos se parecem muito com lebres” e as lebres (em seu sentido antigo) não eram assim tão melhores que os gatos. De fato, podemos até convencer a todos que a antiga lebre era muito pior do que a “nova lebre”.

    Neste ensaio veremos que a “lebre” é a “Ciência”, e o “gato” é a “crença”.

    Antes da mudança, quando não tínhamos uma certeza objetiva, final, absoluta (por meio de provas ou demonstrações), não tínhamos um produto da Ciência, ou seja, não tínhamos uma verdade adquirida, não tínhamos um conhecimento, porque a proposição defendida ainda poderia ser falsa. Mas como Popper, em seu ceticismo, se convenceu que verdades finais, objetivas e absolutas nunca podiam ser alcançadas, o que equivale a dizer que a Ciência não era possível, e como ele queria “salvar a Ciência” (talvez porque gostasse desse rótulo e não gostasse do rótulo “crença”, assim como preferimos o rótulo de “lebre” ao de “gato”), ele propôs uma solução simples: vamos mudar o significado de Ciência!

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  8. E o novo significado é exatamente igual ao que antes chamávamos de crença, ou seja, proposições nunca provadas ou demonstradas, mas que nunca tivessem sido refutadas.

    Imaginem um exercício similar. Eu acreditava em unicórnios e achava que unicórnios existiam no mundo, até que um belo dia eu me convenci de que aquilo que eu defini como unicórnio (ou seja, um cavalo com um chifre na testa) não existe. O que faço então para resolver o problema e “salvar” os unicórnios da não existência? Simples! Vamos mudar o que entendemos por unicórnio! A partir de agora ele não terá mais aquele "chifre horrível" na testa (precisamos tachar de “horrível”, senão as pessoas não vão abrir mão dele facilmente). Pronto, resolvido o problema! Agora em cada haras do mundo podemos encontrar diversos “unicórnios” correndo para lá e para cá, segundo o novo conceito!

    Foi isso que Popper fez com a Ciência. Como ele se convenceu que a Ciência não era possível como reveladora de verdades, ele torceu o conceito de Ciência para “'imunizá-la' contra a verdade e a certeza" (pág. 22 do artigo mencionado acima), ou seja, transformou-a no que era até então "crença", que assim se caracterizava pela convicção subjetiva e falta de certeza objetiva (falta de provas). E tratou de chamar a verdade de um nome feio, para as pessoas se assustarem e se convencerem de que era uma coisa ruim e devia ser abandonada, ou seja, passaram a chamar a verdade de “dogma”.

    Mas o que era dogma antes? Era justamente uma crença que queria se passar por Ciência. Uma verdade devidamente provada e demonstrada não era dogma, era Ciência, era conhecimento. Dogma era somente aquilo que não possuía as devidas provas e demonstrações, mas que queria se passar por conhecimento (por Ciência). Um dogma era uma pseudociência. Hoje é o inverso. A verdade, mesmo que devidamente provada e demonstrada, é dogma, e o que era dogma, porque faltam as provas, hoje é Ciência. Estamos comprando gato por lebre. E pior: estamos felizes com isso. O meu adversário, no último duelo que teve comigo, deixou isso bem claro quando escreveu:

    “É preciso muita humildade para admitir que a ciência não serve para revelar verdades inquestionáveis. Esse é o papel do dogma, não da ciência.”

    Um dos debatedores do grupo no facebook também vive a repetir a seguinte máxima:

    "Ciência não afirma aquilo que é, mas apenas aquilo que jamais se evidenciou diferente."

    As frases acima dizem muito sobre o método científico atual. É evidente que o que se quer com esse novo significado de “Ciência” é passar um verniz científico naquilo que não possui a menor evidência a seu favor (nos dogmas), naquilo que poderíamos licitamente aceitar como crença, com valor subjetivo, mas que quer se apresentar ao mundo como tendo valor objetivo e científico.

    Portanto, ao invés de honestamente admitirem o seu ceticismo com relação à possibilidade de uma Ciência, resolveram torcer o significado de Ciência para se igualar ao que antes era simplesmente crença, ou fé, e não é assim, na minha opinião, que se faz Filosofia da Ciência. Isso é pura enganação.

    Isso teve duas consequências negativas e importantes para a Ciência. Primeiro a elevação do que era apenas crença para o status de uma Ciência. E segundo o rebaixamento do valor da verdade, como se fosse algo de menor valor para o homem. E muitas pessoas hoje não têm o menor receio de admitir publicamente não buscam a verdade, mas uma tese simplesmente “elegante” (critério esse bastante elástico) e que sobreviva à refutação. Reparem no título do artigo que indiquei anteriormente. Ele diz, sem cerimônias, sem nenhuma vergonha, que é “contra a verdade, em favor da razão”.

    O meu adversário também ridicularizou o uso que fiz do termo “revelação de verdades” para me referir à Ciência. Provavelmente ele deve ter interpretado “revelação” no sentido de “revelação religiosa”, ou seja, aquelas proposições que devíamos aceitar por “fé”. Mas o termo “revelação” também significa “descoberta ou divulgação de fato”, ou “tornar conhecido” (algo que era desconhecido).

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  9. Então, não entendi bem se a intenção era “revelar” publicamente a sua ignorância sobre o termo “revelação”, ou simplesmente produzir um espantalho. Toda verdade científica é uma VERDADE REVELADA PELA EXPERIÊNCIA, assim como toda verdade filosófica é uma VERDADE REVELADA POR UMA DEMONSTRAÇÃO.

    Meu adversário também escreveu:

    “Usando o princípio da falseabilidade, para destruir essa minha teoria, bastaria me mostrar PELO MENOS uma coisa sobre a qual o ser humano tenha conhecimento ABSOLUTO. Mas não é possível saber TUDO sobre nada...”

    A própria afirmação “não existem verdades absolutas” destrói-se a si mesma. Se ela fosse verdadeira, então pelo menos uma verdade absoluta existiria, que é a própria proposição “não existem verdades absolutas”. Então, trata-se aí de uma contradição interna explícita. Mas vamos relevar isso e mudar a frase para “não existem verdades absolutas com exceção desta”. Será que não haveria mesmo?

    Primeiramente parece que há uma confusão de entendimento do termo “absoluto”. Parece-me que meu adversário está interpretando-o no sentido de “totalidade”. Ele até pode ser interpretado assim, mas não precisa ser necessariamente interpretado dessa forma, mas também no sentido de “o que não é relativo”, o que é “incontestável”, “irrecusável”, “irrefutável”. Na verdade, se não houvesse tanta má-vontade em entender o que eu escrevo, isso poderia ter sido facilmente percebido, porque se eu afirmasse possuir todas as verdades eu estaria me contradizendo e destruindo os meus próprios argumentos.

    Podemos, portanto, possuir “verdades absolutas”, ou seja, verdades que sejam incontestes, irrefutáveis, independentemente daquilo que eu quero acreditar, mas que sejam parciais com relação ao objeto conhecido. Quando, por exemplo, recebemos uma multa por excesso de velocidade, o instrumento não é capaz de medir a velocidade exata que eu trafegava, mas ele é capaz de dizer, com uma ABSOLUTA CERTEZA, a velocidade mínima que eu trafegava. Ele não diz que eu estava a 89,435643 km/h quando a placa diz 80km/h, e que por isso ele estava me multando. Se dissesse isso eu poderia, com toda razão, perguntar como esse aparelho sabia que eu estava a 89,434643 e não a 89,434641 km/h, e aí alegar que o aparelho é descalibrado, que não é capaz de informar corretamente a minha velocidade, que não provia uma verdade absoluta e que, portanto, a multa era injusta. Mas não é assim. O aparelho informa uma margem de erro (que pelo menos antigamente era de 7km/h), de modo que ele é capaz de afirmar, com absoluta certeza, ao indicar 88km/h, que a minha velocidade real estava igual ou acima de 81km/h, e como a velocidade máxima era 80km/h, a multa é justa.

    Eu não preciso conhecer tudo para fazer afirmações absolutas, mas o que importa primordialmente é que aquilo que eu afirmo como sendo absoluto, seja de fato absolutamente certo dentro da margem de erro que eu demonstro ter. Se eu sou capaz de provar que o meu instrumento erra somente 7km/h para mais ou para menos, eu devo ser capaz de garantir, com uma absoluta certeza, que quando o meu instrumento marcar 88km/h, a velocidade real, que eu não preciso saber qual é exatamente, será um valor compreendido entre 81km/h e 95km/h, sem chances de erro além disso, e que essa informação pode ser provada ou demonstrada de maneira apodítica e inconteste, e por isso vale em um tribunal e pode ser usado para me multar, etc... Não será difícil para o meu adversário perceber que não existe apenas uma, mas inúmeras verdades absolutas deste tipo, ou seja, que são incontestes, irrefutáveis, ainda que dentro de uma certa faixa.

    Na ciência (com “c” minúsculo, como tratei nas minhas CIs), verdades absolutas só são possíveis por meio da experiência, e só são legitimamente científicas aquelas investigações em que a experiência é possível. Faltou aqui explorar mais detalhadamente em que condições a experiência é possível, assim como rebater um argumento pertinente do meu adversário a respeito de como diferenciamos a realidade da alucinação. Deixo isso para a minha próxima participação.

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  10. “Prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião guardada sobre tudo” – Raul Seixas.

    Sua réplica deixou claro que, de fato, temos visões diametralmente opostas com relação à realidade. Segundo o que disse, você é o tipo de pessoa que só muda de ideia depois de se agarrar o máximo possível à ideia que já possui e só aceita a mudança depois de anos, tentando encontrar “rotas de fuga” (sic), e talvez, em uma ocasião excepcionalmente rara, pudesse mudar de ideia, com a mesma responsabilidade de quem muda de religião, passa a assumir uma postura totalmente nova ante a existência.

    A minha forma de ver o mundo é simplesmente diametralmente oposta à sua. Em minha opinião, somos todos primatas falíveis que construíram um mundo de representação, como uma peça de teatro, dentro de suas próprias mentes. A representação nunca poderá representar a existência, em si, pois sempre teremos elementos limitados da narrativa, contando com o ponto de vista de um único elemento da história.

    Dizem que o sistema canabinóide é um dos principais responsáveis pelas alterações nas interações neuronais que ocorrem quando mudamos de ideia. Não sei se isso realmente estimulou alguma coisa, mas sei que desde muito jovem, assumi uma postura cética em relação ao conhecimento humano, tendo que questionar ensinamentos que me pareciam absurdos quando analisados sob a luz da razão totalmente desinteressada.

    Foi então que percebi que a única forma de realmente conhecer alguma coisa sobre o mundo à minha volta seria me desapegar do máximo possível do que já tinham me falado e deixar-me guiar apenas pela fria lógica dos fatos, independente das minhas necessidades, dos meus sonhos quanto ao futuro, das possíveis mentiras que tenham contado pra mim. Exatamente por isso, sempre que leio algo novo, tento ver as coisas por uma perspectiva diferente, analisando quais são as razões que levam os defensores de ideias opostas às minhas a continuarem achando que suas proposições são honestas, quando toda a lógica da situação me mostra nitidamente o contrário. Será que não sou eu quem está analisando tudo errado?

    Afinal de contas, se eu não for rigoroso com o processo seletivo que controla as ideias que entram em minha cabeça (antes de saírem da minha boca, ou do meu teclado), alguém vai ter que ser por mim. Por isso, eu lhe garanto, se o resultado da sua equação me parecer lógico, mudo de ideia na hora. Passo a dizer que a ciência é uma reveladora de verdades absolutas, de conhecimento que não se pode contestar. Esqueço tudo o que aprendi e passa a abominar todo o sistema editorial de artigos científicos que não passa de um sistema negacionista, que vive a procurar os possíveis “defeitos” em seu artigo, apenas para te obrigar a concordar com eles no final. Passo a dizer que a teoria da relatividade de Einstein e a da evolução das espécies de Darwin são na verdade a expressão de crenças naturalistas, sem relação com o que realmente podemos observar na natureza, programas metafísicos que se fantasiam de verdades absolutas (aquilo que com todas as forças vou começar a chamar de “Ciência”, com “C” maiúsculo, a coisa mais importante de se encontrar neste universo, a verdade final das coisas.

    Mas para isso acontecer, vou precisar, no mínimo da sua tréplica. Como ignorou meu argumento central, que o ser humano só consegue conhecer a si mesmo, nunca o universo, em si. Uma representação será sempre incompleta, assim como uma tradução jamais conseguirá representar 100 % do significado original. Eu sei que você vai citar Kant, falar das diferenças entre o mundo fenomênico e o mundo que nos transcende, mas vai arrumar um jeito de continuar teimando que, mesmo sendo uma representação, a verdade é absoluta. Como se a representação, em si, já não fosse uma cópia, uma forma de dizer o que podemos sugerir com nossos limitados sentidos e capacidades interpretativas.

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  11. Se começarmos a achar que temos muita razão, que não podemos estar enganados, vai ser difícil descobrirmos que estamos fazendo errado. Se, ao contrário, passemos a verificar exaustivamente a solidez de nossos próprios princípios, estaremos sempre renovando e aperfeiçoando nossas próprias ideias e nos preparando para situações diferentes, com maior versatilidade. Isso, qualquer administrador sabe.

    E esta é exatamente a questão central que foi levantada por Popper, que analisou o processo de produção do conhecimento de uma perspectiva histórica, e apesar de se dizer um Kantiano, foi além da análise deste autor, levando em consideração o constante processo de reformulação que está presente quando se analisa o processo científico de uma perspectiva humana. Devemos arrumar um jeito de continuar sempre melhorando nossa forma de ver as coisas, de resolver problemas. A melhor forma, segundo Popper, seria sermos o mais rigorosos o possível analisando as coisas que sabemos, pensando na possiblidade delas estarem falsas. Não devemos procurar “rotas de fuga”, como você disse, antes, devemos bater de frente com nossas limitações, pois somente assim conseguimos ver mais adiante e o conhecimento humano se reformula e coisas novas são geradas.

    Para fazer isso, Popper fez exatamente o contrário do que você disse que ele fez. Disse que a ciência deveria se ater apenas ao que fosse objeto de possível experimentação, com observação direta, tentando descobrir o que realmente está acontecendo na natureza, dadas nossas limitações. Mas para isso, não devemos tentar fazer de tudo para provar que estamos certos, ao contrário, devemos constantemente avaliar a solidez de nossos próprios argumentos. As áreas do conhecimento que não estivessem ligadas a isso teriam outro nome. Metafísica seria a área da filosofia que estaria encarregada de estudar a finalidade última das coisas, propósitos, análise do que está além da percepção dos nossos sentidos. Já Pseudo-Ciência seria aquilo que dissesse ser Científico mas que não testasse a si próprio, tentando sempre justificar a si mesmo, nunca o contrário.

    Ciência é um processo em que estão envolvidas um número grande de pessoas, com diferentes formas de analisar os enigmas que a natureza nos propõe. Às vezes, é muito difícil para um estudante de engenharia entender como é que um estudante de história obtém conhecimento analisando fatos que ocorreram no passado e quais os critérios que ele usa para dizer que aquilo realmente aconteceu, para poder tecer interpretações sinceras dos fatos que está analisando. Por isso Popper, que estudou muito mais o assunto que eu e você (por isso é um clássico, não apenas uma autoridade que não é questionada, como você quis parecer), dividiu todas as áreas do conhecimento humano e dissertou a respeito da confiabilidade de cada um dos tipos de conhecimento humano. E de lá pra cá, aprendemos muita coisa, analisando o processo todo de diferentes perspectivas.

    E é apenas por isso que vai ficar difícil você me fazer mudar de ideia. Se você não levar em consideração o agente humano como fator importante no processo que está analisando, não tem como eu acreditar no resto do que você diz. Afinal de contas, de onde vem essa certeza de que as coisas são do jeito que você quer que seja? De que toda comunidade científica está errada? Que o processo de publicação é falacioso? Aquilo que você acha ser conhecimento seguro parece não passar de uma interpretação errônea daquilo que realmente é possível de se obter quando se analisa a realidade à sua volta.

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  12. É mais que uma teimosia inocente de quem confia demais em nossos sentidos e capacidade de cópia da natureza. É uma necessidade de dizer que está muito tranquilo em sua posição espiritual filosófica, por que já encontrou a solução! Deus não pode ser negado! E como é melhor acreditar nele, pois ele resolve uma cacetada de problemas morais e cosmogônicos, e ficamos logo com uma resposta absoluta e deixamos de esquentar a cabeça com isso, pois está tão certo quanto um teorema de Pitágoras que jamais poderão ser provados falsos! Por ídolos poderosos e com pés de chumbo como esses, vale a pena dedicar minha vida, na crença irrefutável que viverei de novo, mais esperto e caridoso, até transcender e divindade. Que lindo isso...

    Eu só não consigo deixar de achar que está procurando por uma resposta confortante, não o que realmente está acontecendo na natureza, qual é a mentira menos falsa contada pelos humanos limitados, que nunca conseguirão acessar à realidade em si, para apegarem-se demais a uma ideia a ponto de não mudar quando ela pode estar te levando para o precipício.

    Segundo sua própria definição, “Absoluto” é definido como algo fundamental independente de outro algo. Vem do latim e quer dizer “em si e por si”. Ora, para ser independente de outro algo não pode ser algo que foi sujeito de transformação. Para que algo se transforme, precisa ser dependente de sua antiga forma. LOGO, nada que é produto de transformação pode ser absoluto. Pelo menos não pela própria definição da palavra que você usou. Mas foi isso que você fez durante toda a sua introdução.

    O uso deste termo por religiosos dogmáticos não está errado, por que eles acreditam que os valores morais vêm de algo que transcende o homem e não pode ser mudados, são por isso IMUTÁVEIS sendo portanto, ABSOLUTOS. Não se pode dizer que algo é mutável e absoluto simplesmente por que isso não faz absolutamente nenhum sentido lógico. Mas, assim como você, a maioria das pessoas prefere se contentar com as respostas mais convenientes, por não admitir viver sem respostas, sejam elas quais forem. Aquilo que você acredita define aquilo que você é. Guia todas as suas ações.

    E quando as pessoas preferem acreditar em coisas que não são reais em detrimento àquelas que são, estão vivendo uma ilusão em massa que pode ter resultados extremamente nefastos para a raça humana. Certeza absoluta é uma droga que controla a vida das pessoas, mais que qualquer outro vício. Ela toma o lugar na mente que antes estaria ocupado pelo senso crítico e leva as pessoas a contaminarem o mundo com seus princípios invioláveis. Isso é totalmente contrário à filosofia e apenas quem vive sua vida pautada em ideologias corre o risco de adquirir esse vício. A Ciência, ao contrário, busca objetividade para suas análises, considerando que qualquer que seja a resposta que ela encontre (pode vigorar até mesmo por décadas), não é absoluta, JUSTAMENTE por que é passível de verificação. Para ser racional, uma ideia precisa estar sempre aberta ao debate e a transformações e se é aberta a transformações, não é absoluta.

    Sócrates dizia que deveria existir uma forma de se chegar a conclusões mais concretas sobre assuntos envolvendo moralidade que independessem das opiniões dos envolvidos, mas apenas da análise lógica e racional dos fatos. O objetivo dos diálogos Socráticos era tentar chegar à verdade sobre algum assunto (dialética). Embora muita gente seja incapaz de mudar de ideia, a forma como a conversa é conduzida pode mostrar a lógica de várias possíveis argumentações, fazendo com que as pessoas reflitam melhor sobre suas próprias convicções iniciais. O que Sócrates estava tentando dizer é que deve existir uma forma imparcial de se analisar questões morais e que não dependem apenas das opiniões das partes envolvidas. Mas ao invés de dizer que existem seres invisíveis nos ditando o que é certo ou errado, Sócrates disse que a partir da lógica e da razão, é possível chegar a conclusões racionais e imparciais sobre esses assuntos. Eu não consigo deixar de concordar desse cara para concordar contigo, sinto muito.

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  13. Saudações duelista.

    Em princípio, só esclarecendo, quando me referi às fases que percorremos para uma mudança de opinião, eu não quis dizer que ela deve ser necessariamente longa, mas que em alguns casos ela se torna longa, porque é parte da natureza humana não entregar os seus pontos sem lutar. E é ótimo que seja assim, porque do contrário isso inviabilizaria o progresso do pensamento. Imagine que eu chegasse para você com uma verdade prontinha, saída do forno, e em uma primeira olhadela você a reconhecesse como tal e simplesmente dissesse “amém”. Não pode ser assim. É preciso defender o nosso ponto até o fim, até quando não der mais (e não passar disso, porque senão vira teimosia, como bem disse), a fim de mapear todos os argumentos sofísticos que a razão humana conseguir inventar e refutá-los todos, porque senão a verdade nunca vai ser aceita de modo absolutamente seguro.

    Mesmo porque o nosso argumento original pode estar correto, embora mal fundamentado, e a “verdade nova” é que pode ser sofística (como aconteceu, por exemplo, no caso de Popper que supostamente superou Kant na metodologia da Ciência), de modo que é útil sim procurar defender o nosso ponto de vista até o fim, tanto para quem está com a razão, para que possa aprimorar a sua argumentação, como para quem não está com a razão, a fim de que quando finalmente entregar os pontos tenha absoluta certeza de que explorou todas as possibilidades do argumento.

    Kant, por exemplo, não foi bem defendido no seu tempo, de modo que foi considerado “superado” pelos céticos Jacobi e Schulze. Mas não foi. Faltou apenas luta por parte dos seus apologistas, ou faltaram apologistas, o que também não é muito difícil de ter ocorrido. E dali para frente a filosofia, incluindo a filosofia da Ciência, só andou para trás. Por isso é preciso remontar ao argumento original a fim de verificar o real valor dos argumentos que o teriam “superado”, para ver se se sustentam. Não é foco deste debate, mas caso se interesse em entender como Kant foi “pseudamente” refutado, siga o link:

    http://filosofia-filosofisma.blogspot.com/2014/03/refutacao-kantiana-do-idealismo.html

    A razão humana, segundo Kant (e eu concordo com ele) tem 3 fases: a dogmática, a cética e a crítica.

    Na fase dogmática somos cheios de “certezas absolutas” sem que saibamos justificar bem essas certezas. É uma fase de certa forma infantil, como quando somos crianças e aceitamos quase que cegamente tudo aquilo que os nossos pais nos dizem, independentemente do que seja.

    Um belo dia acontece algo que abala uma dessas “certezas absolutas”, o que nos causa um choque e ao mesmo tempo coloca em xeque todas as outras supostas “certezas absolutas” que achávamos que tínhamos. É a fase cética. E como não sabemos neste momento o que delimita a dúvida e a certeza, duvidamos de tudo e passamos a negar sistematicamente qualquer possibilidade de conhecimento objetivo e definitivo. Essa é a fase que atingiu Hume, Popper e vários outros filósofos da Ciência contemporâneos, que acabou por contaminar a Ciência com um profundo ceticismo. A propósito, Popper não era kantiano. Caso fosse esse ceticismo não teria se manifestado nele.

    A fase cética é com certeza um avanço em relação à fase dogmática, mas este estado também não é bom, porque se não tenho nada firme em que me apoiar, estou encalhado e não posso progredir, porque tudo então será mero “achismo” sem nenhum valor de conhecimento. Kant, em Prolegômenos, introdução:

    “...este [Hume] não pressentiu igualmente a possibilidade desta ciência formal, mas levou o seu barco, a fim de o pôr em segurança, para a margem (o ceticismo), onde talvez fique e apodreça, ao passo que a mim [Kant] me interessa fornecer-lhe um piloto que, segundo os princípios seguros da arte do timoneiro tirados do conhecimento do globo, munido de uma carta marítima completa e de uma bússola, possa conduzir o barco para onde bem lhe aprouver.”

    O cético está certo ao reconhecer que a razão tem os seus limites, mas mais importante do que isso é descobrir onde estão esses limites. Novamente Kant:

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  14. “O primeiro passo nas coisas da razão pura, que indica a infância desta, é DOGMÁTICO. O segundo passo, de que acabamos de falar, é CÉTICO e testemunha a prudência do juízo avisado pela experiência. Mas é ainda necessário um terceiro passo, que pertence unicamente ao juízo maduro e viril, o qual tem por fundamento máximas sólidas e de provada universalidade; consiste em submeter a exame não os fatos da razão, mas a própria razão no que respeita a todo o poder e capacidade de conhecimento puro a priori; já não se trata aqui da censura, mas da CRÍTICA da razão, que não se contenta em presumir simplesmente que a nossa razão tem barreiras, mas demonstra, por princípios, QUE TEM LIMITES DETERMINADOS; não se conjectura apenas a ignorância de um ou outro ponto, mas sim a ignorância relativa a todas as questões possíveis DE UMA CERTA ESPÉCIE. Assim, o ceticismo é um lugar de descanso para a razão humana, onde esta pode refletir sobre o caminho dogmático percorrido e esboçar o esquema da região onde se encontra, para poder de aí em diante escolher o caminho com maior segurança; mas não um lugar habitável para morada permanente; pois esse só pode ser encontrado numa certeza completa, seja do conhecimento dos PRÓPRIOS OBJETOS, seja dos LIMITES nos quais está encerrado o nosso conhecimento de objetos.” (CRPura, B789)

    No que se refere à ciência (com “c” minúsculo), onde estão esses limites? Kant responde: experiência possível. O que é experiência é conhecimento certo e absoluto. O que é experiência possível é conhecimento possível. Passou disto é impossível. Desse modo, o que delimita a ciência da não-ciência é a experiência possível.

    Mas quais são os critérios que mostram que uma experiência é possível? Em primeiro lugar, diz Kant (e, novamente, concordo com ele), só é possível experiência daquilo que pode ser representado no tempo ou no espaço, porque fora deste âmbito a nossa mente não tem mais capacidade de conhecer. E em segundo lugar, o conhecimento pretendido precisa se moldar ao que Kant chamou de “categorias do entendimento”, que são 12 no total e nada mais são do que categorias lógicas. Coisas que não podem ser representadas no tempo e no espaço, ou que violem uma das categorias, podem até ser pensadas pela razão e podem até existir na realidade, mas não podem ser por nós conhecidas, nem sequer sua existência ou inexistência, porque transcendem a nossa faculdade de conhecer, não sendo, portanto, passíveis de uma experiência.

    Tudo o que podemos conhecer deve se moldar às categorias e deve, portanto, ser extenso (não pode ser incorpóreo), não pode ser infinito e nem infinitesimal (simples, indivisível), o que exclui a possibilidade de conhecimento da totalidade absoluta e da quintessência da matéria, precisa nos aparecer em uma intensidade qualquer que afete os nossos sentidos (não pode ser algo que não interaja com nada), não pode surgir do nada e nem desaparecer para nada, no caso dos eventos eles devem sempre possuir uma causa no tempo (um evento que o precede) ou no espaço (uma condição concomitante).

    Qualquer coisa que viole qualquer desses princípios não pode ser para nós uma experiência, não podendo ser conhecido nunca e, portanto, não é matéria da ciência.

    Então, por exemplo, quando pensamos em Deus, o pensamos primeiramente com atributos de infinitude e simplicidade. Não pode ser conhecido. Quando pensamos na nossa própria inteligência, ela é pensada como simples (sem extensão, indivisível) e autodeterminada (que viola a causalidade no tempo). Não pode ser conhecida. Quando pensamos na indeterminação dos físicos, ela viola a causalidade. Não pode ser conhecida. Para provar a seleção natural ou o design inteligente, precisaríamos chegar à forma mais simples e indivisível da matéria, o que seria, no limite, não extenso e incorpóreo. Não é possível conhecer. Por isso todas essas teses que precisam avançar para uma região fora do tempo e do espaço ou que viole a nossa capacidade de entendimento, não são objetos de experiência possível e nem tampouco objetos de investigação da Ciência.

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  15. Tornam-se pseudociência quando insistimos em conhecê-las.

    Mas se são objetos de experiência possível, o conhecimento certo e absoluto é possível, mas apenas no fenômeno. Nunca conheceremos a coisa como ela é em si. Nem precisamos.

    A ciência investiga o passado. Ela nada pode saber sobre o futuro. E o passado é imutável, não importa o que façamos. O futuro é que é incerto. Por isso a crença deve olhar somente para o futuro enquanto que a ciência olha apenas para o passado, porque em uma é possível uma certeza e na outra não. O passado é imutável e absoluto, e um conhecimento verdadeiramente científico é um conhecimento do passado, que ocorreu em uma experiência. Galileu apontou o seu telescópio e viu satélites em Júpiter. Os satélites estavam lá, o fato está no passado, nada mais vai mudar isso. O que cabe é tentar explicar como diabos esses satélites chegaram lá, mas ninguém pode negar que eles estavam lá, ainda que um dia todos eles, assim como tudo o que existe, desapareçam e virem pó. Por isso esse tipo de conhecimento é absoluto, porque sua realidade é independente de qualquer outra coisa, não muda mais independentemente do que aconteça; é passado.

    Duas dificuldades a serem resolvidas aí:

    - a primeira é que a ciência, supostamente, quer fazer previsões para o futuro com base nas suas descobertas do passado;

    - e a segunda é como podemos diferenciar o sonho (ou alucinação) da realidade.

    Eu vou explicar suscintamente aqui por causa do espaço e, se for o caso, nas minhas CFs ou na discussão paralela eu desenvolvo melhor.

    No primeiro caso, o uso futuro de uma descoberta científica pertence mais à Engenharia e à tecnologia do que à ciência, visto que a ciência investiga aquilo que “é”, e a tecnologia e a Engenharia projetam o que “deverá ser”. Sempre que olhamos para o futuro olhamos para o incerto, de forma que as certezas absolutas desaparecem, ainda que eu esteja bastante certo (convicto) de que um evento que ocorreu no passado vá se repetir no futuro. O mesmo podemos afirmar com relação a eventos futuros que a ciência tenta prever. Ela pode afirmar, com bastante convicção, com base em observações passadas, inclusive de estrelas semelhantes, que nada indica que o nosso sol esteja prestes a explodir, que vamos durar por aqui mais alguns milhões ou bilhões de anos. Porém nada será capaz de garantir uma certeza absoluta disso. É crença que o nosso sol não explodirá amanhã, e não ciência (no sentido de absoluta certeza).

    Isso realmente é relativo e, por isso mesmo, não é conhecimento. A ciência só é realmente ciência quando olha para o passado, pois apenas este é imutável para nós e é possível uma absoluta certeza. Quando queremos olhar para o futuro o fazemos como crença (por exemplo, tenho razões para ACREDITAR – mas não absolutamente saber –, com base nas observações passadas, que o nosso sol não vai explodir nos próximos milhões de anos). Esse é um dos papéis da crença na ciência, porém a crença não se confunde com a ciência. Ciência é só o que posso ter absoluta certeza.

    E como diferenciamos os sonhos e alucinações dos fatos reais? Resposta: pelo absurdo. Os sonhos e alucinações são absurdos para um espaço tridimensional, embora sejam reais na imagem bidimensional que nos aparece. E por que são absurdos? Porque violam as categorias do entendimento. É assim também que desmascaramos um mentiroso. Em um sonho, por exemplo, eu apareço em um lugar, que não sei explicar como cheguei ali (viola a categoria de causalidade). Depois simplesmente desapareço dali e apareço em outro lugar, sem que haja ali um nexo causal. Como a polícia descobriu que os Nardone mentiam no caso do assassinato da menina Isabela? Porque o “timing” não fechava, o que é a mesma coisa que dizer que as categorias do entendimento foram violadas no relato deles, ou seja, o nexo causal foi rompido com a versão que eles deram, só se eles saltassem no tempo. É esse o fio condutor do argumento.

    Nas minhas CFs eu desenvolvo melhor a questão, com mais exemplos, se precisar.

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  16. Rafael, você me desculpe, mas confesso que fiquei bastante decepcionado com sua tréplica. Eu aqui esperando você tentar justificar como é que representações de alguma coisa feitas a partir de cópias imperfeitas poderiam ser “em si, por si só” (absolutas) e você não falou absolutamente nada a respeito. O grande problema é que este é o meu argumento central, desde o começo do debate e você resolveu ignorá-lo completamente. Ao invés disso, continuou dizendo que o conhecimento a respeito da natureza pode ser absoluto, sem dizer como, quando toda a lógica já havia nos mostrado que isso era impossível, desde que alguém tivesse realmente lido o que eu havia escrito. Por isso, cheguei a cogitar que você não leu absolutamente nada do que eu disse, ao invés disso, pareceu querer me ensinar um pouco do que sabe sobre filosofia Kantiana, sem se perguntar primeiro se eu estou ou não cansado de saber o assunto.

    Sendo assim, como não podia deixar de ser, minhas contraposições às suas colocações iniciais continuam de pé e provavelmente continuarão até o fim do duelo, não fosse assim, alguém já teria escrito alguma coisa a respeito. Ou então você é absurdamente original e não está conseguindo se expressar. Qualquer que seja a situação, não está conseguindo me convencer e não é por que eu sou teimoso e estou buscando por “rotas de fuga” para continuar tendo razão. Na verdade, eu até gostaria que você derrubasse meus argumentos, já debati este tema várias vezes só vai ter valido a pena debater de novo se você, diferente dos outros com quem debati, traga algo novo para o debate que não seja apenas ignorância sobre o tema ou uma alteração radical no real sentido das palavras.

    Como você disse em sua tréplica, que eu li, com bastante calma, a primeira forma que temos de conhecer o mundo, e também a mais tosca é o conhecimento vulgar, ou senso comum, que é a herança da influência social que é exercida sobre nós desde o dia em que nascemos. Ao longo da vida, receberemos influência social que fará parte do nosso aprendizado que será responsável por formar nossa própria versão da realidade. E cada um possui sua própria versão da realidade, com suas próprias respostas para os dilemas mais complicados, que garante que alguém consiga viver sua vida, seguro de suas próprias ideias e fundamentado naquilo que ele próprio escolheu para definir a si mesmo.

    E como eu havia dito desde o início do debate, e para o qual não houve objeção (ainda bem, pelo bem do bom senso!), a história e também a filosofia tem nos mostrado que o ser humano é um excelente especialista na arte de equivocar-se. Inúmeras grandes convicções humanas foram quebradas ao longo dos séculos para formar arquivos de conhecimento que contrariam a experiência empírica e são anti-intuitivos, mostrando que existe uma outra realidade além daquela que podemos conhecer quando fundamentamos nossas ideias apenas naquilo que nos é dito por nossas autoridades ou pelas pessoas com quem convivemos.
    Culturas inteiras se enganam em relação a questões fundamentais da existência humana. O que é considerado um absurdo por uma cultura pode ser considerado essencial para outra. Mas se existe uma verdade transcendental, ela deve estar além das culturas e estar ligada a alguma característica que é inerente a todos os seres humanos.

    Todos possuem, em determinado nível, algum juízo preconcebido que pode ser manifestado em forma de atitudes discriminatórias perante outras pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou “estranhos” aos seus. Existem coisas toleráveis e coisas que não conseguimos tolerar, sendo que a maioria das nossas intolerâncias são aprendidas por influência social, oriunda do senso comum. Por vezes, vemos um grupo social indicar desconhecimento pejorativo de alguém ou de algum grupo social, que lhe é diferente. Qualquer atitude que, de alguma forma, gere algum desconforto psicológico, instintivamente ativa esta resposta comportamental.

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  17. Entretanto, quando não pensamos na possibilidade da nossa ideia estar errada, formamos conceitos baseados em estereótipos incorruptíveis que jamais poderiam representar verdades filosóficas, uma vez que são formados por argumentos circulares que se auto suportam e criam um ciclo de sofismas irrefutáveis que dão a ilusão de que podemos ter certeza de alguma coisa. A coisa mais importante nas reflexões de alguém guiado pela honestidade intelectual é a dúvida. Se você aceitar um dogma ou um postulado como fundamento, nunca poderá provar-se errado. E se não puder perceber que está errado, jamais poderá perceber a verdade que existe além daquilo que você já aprendeu. E é por isso que certezas absolutas são tão perigosas.

    Para o Rafael, a Ciência é capaz de nos trazer conhecimento absoluto sobre o universo e quando queremos continuar acreditando em algo sem evidência, fazemos uso da fé, para a qual não existe explicação por vias racionais (me corrija se eu estiver errado), mas que mesmo assim, vale a pena acreditar. Este tipo de mentalidade leva as pessoas a inferirem coisas bastante específicas sobre a natureza do cosmo, o que acontece após a morte ou a resposta definitiva para complicados dilemas morais. E isto leva à criação de sociedades onde os homens vivem suas vidas sonhando com o que vai acontecer quando ele receber 72 virgens no paraíso e o que deve fazer para alcançá-las.

    Outros defendem veementemente a existência de um sádico todo poderoso nos céus dizendo explicitamente o que as pessoas deveriam fazer para que sejam premiadas após a morte. Entretanto, não existe nenhuma boa evidência de que qualquer uma dessas coisas seja verdade e mesmo assim, as pessoas preferem acreditar nisso, do que naquilo que foi investigado, explorado, discutido e aceita mudar sua própria explicação. E as pessoas chegam a conclusões que não tem problema algum em se acreditar neste tipo de coisa, mesmo que não haja nenhuma justificativa racional para embasar a atitude. De que não se deve criticar aquilo que uma pessoa acredita.

    Bem, se fosse apenas uma crença, de fato, não haveria problema algum em dar a este tipo de fé todo o respeito que os fiéis querem, da mesma forma que se respeita o modo de se vestir de alguém, ou a forma como você decora sua casa. Mesmo que eu ache horroroso quando alguém se veste de forma ridícula, eu a respeitaria o suficiente para não dizer nada. Mas a fé religiosa é mais do que apenas uma crença. A ideia central em torno de toda a fé religiosa gira em torno da imposição de uma moralidade universal e por isso sempre atraiu o tipo de gente que acha que a vida dos outros é problema deles. Para o Rafael, o ateísmo é uma ideologia que está impregnando o conhecimento científico atual de “crenças ateístas” (uma crença na descrença, como se isso não fosse uma enorme de uma contradição).

    Respeitar este tipo de mentalidade é exatamente o que nos trouxe vários problemas que vivemos hoje. Ao fornecer à religião um crédito imerecido por aquilo que ela não é capaz de fazer, fechamos os olhos para àquilo que a fé religiosa realmente representa: a suspensão deliberada de uma descrença. É um ato de vontade, é uma escolha. Não é um “estado de graça” nem algo que apenas algumas pessoas podem experimentar. É a aceitação de uma explicação, mesmo que não existam boas provas para sustentá-la. Então por que este tipo de fé é mais merecedora de respeito que sua vontade em usar botas ou sandálias?

    E por que este tipo de fé é considerada algum tipo de “virtude”? Não ajuda a aprofundar nenhum tipo de conhecimento, muito pelo contrário. Ao propor que suas respostas são definitivas, ela simplesmente incentiva as pessoas a deixarem de fazer perguntas. Além disso, os impactos que este tipo de coisa pode provocar nas mentes das crianças são tremendos. Por isso eu acho que, de fato, devemos tratar a questão da fé religiosa com todo o respeito que ela merece, mas absolutamente nada além disso. O grande problema está em achar que ela merece mais repeito do que o que realmente merece.

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  18. Mesmo por que, respeito é algo que se conquista. Tudo o que clama para si um “respeito inerente” pelo simples fato de ser como é, deveria ser alvo de críticas. Algumas coisas precisam ser criticadas e outras ridicularizadas para que as pessoas pensem melhor a respeito de suas posturas, afinal de contas, críticas são fundamentais para quem quer enxergar os próprios defeitos e aprender com eles. Todos sabem o que acontece com um estado quando ele proíbe as críticas a si mesmo, clamando para si um “respeito” na marra, imerecido. Também sabemos que isso acontece principalmente quando um estado quer impor seus ideais para a população, justamente por saber que o diálogo franco e aberto o impediria de agir como quer.

    Por que a religião teria esse direito? O que faz com que a religião seja algo que deva estar fora do escopo das críticas das pessoas, ao contrário de todas as outras instituições humanas? E mais... Será que dar este tipo de humanidade para este tipo de fonte de conhecimento é algo que pode ser útil para a humanidade? Mesmo que o Deus dos hebreus, tal como descrito na Bíblia realmente exista, ainda assim isso não seria motivo para seguir seus preceitos sem pensar antes em suas implicações. E se ele existisse, eu queria ouvir isso dele, de ninguém mais. Como é que eu posso acreditar que algo tão fundamental existe, baseado apenas no que dizem outras pessoas ou no que foi escrito séculos atrás, por culturas primitivas?

    Mas eu entendo muito bem por que pessoas como o Rafael são tão atraídas por este tipo de conhecimento, ao ponto de almejar uma “Ciência” que seja tão inquestionável quanto um dogma religioso. Afinal de contas, é muito conveniente viver sua vida pautada em respostas prontas (por mais absurdas que elas possam ser) do que pautar sua vida na dúvida e na constante investigação. Tanto é que o ato de obter conhecimento a partir do questionamento e do acúmulo de evidências é um fenômeno bastante recente na história da humanidade e por isso, ainda está em fase de aceitação e assimilação da grande massa, que ainda permanece presa aos dogmas do senso comum, de uma vida sem reflexão. Mas uma coisas que todas as pessoas deveriam perceber é que não importa o tanto que você acredita em uma coisa, isso por si só, não vai fazer o que você acredita REAL.

    Alguém pode muito bem ser hipnotizado para acreditar que é uma galinha, mas não pode esperar que todas as outras pessoas irão acreditar nisso, a não ser que ele mostre os ovos que está botando. Por essa e outras que eu não acredito que o Deus Hebreu, como descrito na Bíblia existe e por isso sou considerado por muitos um “ateu”. Mas para mim, “ateu” é uma palavra que não deveria nem existir, pois quando o ser humano chega ao ponto de embutir um nome em uma descrença, significa que acha que o certo seria que todos aceitassem a crença, o que, por si só, já é uma atitude discriminatória com quem não concorda em aceitar a crença.

    Eu prefiro me considerar um “Agnóstico Fundamentalista”. Em outras palavras, eu não sei. Eu não acho que ninguém mais também saiba alguma coisa e acho que todos os que não concordam comigo são um bando de infiéis hereges e malditos. Afinal de contas, faz parte da natureza humana especular sobre as coisas que ele não conhece, mesmo por que, imaginar respostas para as coisas faz parte do processo que vai um dia levar à verdadeira resposta. Mas também faz parte da natureza humana aceitar essas respostas, ainda que incompletas ou sem evidências que as sustentem. Em alguns casos, são capazes de morrer por essas ideias formadas, sem nenhuma comprovação de que elas são, de fato, reais.

    Da mesma forma que o espírito investigativo parece fazer parte da natureza humana, também parece existir uma tendência de que as pessoas continuem firmes acreditando nas mesmas coisas pelo resto de suas vidas. Por isso, as ideias que são colocadas nas mentes das pessoas durante os primeiros momentos de suas vidas são extremamente importantes para a formação do caráter das pessoas.

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  19. Prezado duelista,

    Chegamos finalmente às considerações finais. Eu expliquei o argumento e você é que parece que não o compreendeu bem. Um juízo de percepção, subjetiva, pode muito bem converter-se em um juízo de experiência, de valor objetivo e universal, quando submetido a conceitos do entendimento. Um exemplo que Kant utilizou e que se aplica a vários outros similares:

    “Para se ter um exemplo mais fácil de compreender, tome-se o seguinte. QUANDO O SOL INCIDE NUMA PEDRA, ELA TORNA-SE QUENTE. Este juízo é um simples juízo de percepção e não contém nenhuma necessidade, seja qual for o número de vezes que eu e outros tenhamos percebido este fenômeno; as percepções encontram-se assim associadas apenas por hábito. Mas, se eu disser: O SOL AQUECE A PEDRA, o conceito intelectual de causa sobrepõe-se à percepção, ligando necessariamente o conceito de calor ao conceito de luz solar, e o juízo sintético torna-se universalmente válido de modo necessário, por conseguinte objetivo, e de percepção transforma-se em experiência.” (Prolegômenos, §20, nota)

    As percepções são de fato sempre subjetivas no seu conjunto. Mas essas percepções subjetivas, submetidas a conceitos intelectuais do entendimento, podem originar conhecimentos objetivos, absolutos e universais, como no exemplo acima. Não é preciso me estender. Se não entendeu / aceitou até agora, não é com mais algumas poucas linhas que o fará.

    Eu repassei todos os seus argumentos anteriores e vou aproveitar para comentá-los rapidamente nestas considerações finais, que servirá para sumarizar todo o meu argumento.

    Uma “verdade definitiva fenomênica” é diferente de uma “verdade definitiva ‘em si’”. As primeiras são possíveis (o sol aquece a pedra). As últimas não (para nós, na Terra). Parece-me que você não soube bem diferenciar isto. A Ciência revela verdades formais ou fenomênicas, mas não verdades do mundo “em si”.

    As certezas de fato não movem o mundo, pois são passado. Já as dúvidas só movem o mundo aliadas a convicções (ou crenças), que olham sempre para o futuro. Na dúvida sem convicção eu não atuo, exceto em casos de pouca relevância. E casos de pouca relevância não movem o mundo. Se tiver que apostar 100 reais em um negócio duvidoso, posso me dar ao luxo de arriscar sem convicção de que o negócio será bem sucedido, pois pouco vou perder se der errado. Mas se tiver que apostar 100 mil, eu vou me cercar de todos os elementos de convicção para eliminar, ainda que subjetivamente, todas as dúvidas a respeito desse negócio. Se não conseguir eliminá-las do meu íntimo, não vou colocar o meu dinheiro lá e, portanto, o “mundo não se moverá por minha causa”. Vou deixar tudo na poupança ou debaixo do colchão. É claro que a convicção pode se revelar falsa no futuro, mas mesmo assim eu preciso acreditar nela no presente para investir os meus recursos no projeto incerto.

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  20. Que tudo deve estar sujeito ao debate, que tudo pode ser contestado (inclusive o falacioso “método científico não empírico" vigente), concordamos. Mas que por causa disso o conhecimento não pode ser absoluto, discordamos. Você pode discutir o quanto quiser o fato histórico, empírico, absoluto, do assassinato dos cartunistas em Paris no início do mês passado (longe de mim querer que se proíba de fazer isso). Mas o fato de você discutir isso não vai trazer eles de volta à vida nem inocentar os terroristas. É conhecimento histórico, final, objetivo e imutável.

    Você também, em determinados momentos do debate, parece que ora dava muito pouco valor à lógica (quando ela jogava contra os seus argumentos), e ora dava muito valor a ela (quando ela supostamente sustentava o seu argumento). Você escreveu, ao longo do debate:

    “Confiar em nossos sentidos, e até mesmo em nossa LÓGICA, pode ser muito útil, mas não representa necessariamente nada além daquilo que nossas limitações possam alcançar.”

    Mas quando é para me rebater, a lógica consegue não apenas atestar a realidade, mas a atesta também a necessidade e/ou a impossibilidade, como abaixo:

    “Exatamente por isso, sempre que leio algo novo, tento ver as coisas por uma perspectiva diferente, analisando quais são as razões que levam os defensores de ideias opostas às minhas a continuarem achando que suas proposições são honestas, QUANDO TODA A LÓGICA DA SITUAÇÃO ME MOSTRA NITIDAMENTE O CONTRÁRIO.

    “Ao invés disso, continuou dizendo que o conhecimento a respeito da natureza pode ser absoluto, sem dizer como, QUANDO TODA A LÓGICA JÁ HAVIA NOS MOSTRADO QUE ISSO ERA IMPOSSÍVEL, desde que alguém tivesse realmente lido o que eu havia escrito.”

    Você também escreveu em um momento do debate:

    “A Ciência, ao contrário, busca OBJETIVIDADE para suas análises, considerando que qualquer que seja a resposta que ela encontre (pode vigorar até mesmo por décadas), não é absoluta, JUSTAMENTE por que é passível de verificação. Para ser racional, uma ideia precisa estar sempre aberta ao debate e a transformações e se é aberta a transformações, não é absoluta.”

    Só me explique, por favor, como é que algo que não é definitivo, absoluto, pode ser objetivo? Não é absoluto que exista vida em outros mundos que não a Terra. As pessoas podem ainda acreditar justamente no contrário. Então, esse tipo de juízo jamais pode querer ter qualquer pretensão de objetividade. Mas um juízo de experiência não varia de pessoa para pessoa. Ao afirmar que “o sol aquece a pedra”, posso estar certo de que nunca virá alguém me dizer que o sol esfria aquela mesma pedra quando sobre ela incide a sua luz, posso estar certo igualmente de que nunca aparecerá ninguém alegando que não existem microorganismos, porque isso tudo são fatos empiricamente provados acima de qualquer dúvida. E é justamente por ser passível de verificação que esse tipo de conhecimento torna-se objetivo e absoluto. Objetivo e absoluto são palavras indissociáveis. Só pode ser objetivo o que é absoluto, e o que não é absoluto jamais pode ser objetivo, ou seja, jamais pode pretender valer para todos e terá caráter apenas subjetivo (de crença).

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  21. Nós somos, de fato, especialistas na arte de nos equivocarmos. Mas nós só nos equivocamos quando queremos falar sobre o mundo para além da experiência. Ninguém se equivoca quanto a um fato empírico testemunhado, mas apenas quando tentamos conjecturar, sem a experiência, como no caso da teoria das cordas, multiversos, etc... Observe todos os casos em que a humanidade se equivocou e verá que em nenhum deles a experiência esteve presente.

    Você também escreveu:

    “Inúmeras grandes convicções humanas foram quebradas ao longo dos séculos para formar arquivos de conhecimento que contrariam a experiência empírica e são anti-intuitivos...”

    Te desafio citar um único exemplo de uma convicção humana fundada em uma experiência direta que tenha sido revogada. Tudo o que foi revogado sempre se baseava em mera especulação, sem qualquer respaldo do empírico (embora as especulações até começassem a partir de um fato empírico).

    Você também escreveu:

    “A coisa mais importante nas reflexões de alguém guiado pela honestidade intelectual é a dúvida. Se você aceitar um dogma ou um postulado como fundamento, nunca poderá provar-se errado. E se não puder perceber que está errado, jamais poderá perceber a verdade que existe além daquilo que você já aprendeu. E é por isso que certezas absolutas são tão perigosas.”

    A dúvida cega e sistemática também é perigosa, porque começamos a duvidar de fatos, de evidências, de provas, e toda a realidade passa a ser vista como um mero jogo da imaginação. E eu posso aceitar não um dogma, mas um postulado como fundamento, mas isso não significa que nunca poderei provar-me errado. Se eu postulo o sucesso de um empreendimento, e ele fracassa, eu provei-me errado, mesmo postulando o seu sucesso.

    Você também escreveu:

    “Para o Rafael, a Ciência é capaz de nos trazer conhecimento absoluto sobre o universo e quando queremos continuar acreditando em algo sem evidência, fazemos uso da fé, para a qual não existe explicação por vias racionais (me corrija se eu estiver errado), mas que mesmo assim, vale a pena acreditar.”

    Na verdade recorremos à fé quando PRECISAMOS decidir sobre uma questão e não temos as evidências empíricas suficientes para provar que a escolha é a correta em detrimento das outras alternativas. Mas nem tudo eu preciso decidir, de modo que não preciso recorrer à fé. Por exemplo, preciso decidir intimamente se Deus existe ou não, se sou ou não livre, se sou ou não imortal, porque isso afeta as minhas ações no mundo e a minha vida e a de outros. Desse modo, recorro à fé, seja para acreditar que Deus existe, que somos livres e imortais, seja para acreditar no contrário. Mas não preciso decidir se existe ou não vida em Marte, ou em alguma lua de Júpiter, etc... Dessa forma, não digo que tenho fé que exista vida em Marte, porque simplesmente não preciso decidir sobre isso. Posso tranquilamente esperar a Ciência me revelar empiricamente essas verdades ainda ocultas.

    Por fim, quero deixar aqui claro que nada tenho contra a fé ou contra as crenças e convicções, por mais estúpidas que elas possam ser, desde que elas se apresentem como tais. Mas desde que elas se apresentem como Ciência e queiram reivindicar objetividade para aquilo que não possui a menor evidência objetiva, então pelo bem da própria Ciência não podemos ficar calados perante essa charlatanice intelectual. E é justamente isso que procurei fazer neste ensaio (com ou sem sucesso), ou seja, mostrar como que filósofos que se tornaram descrentes da Ciência (como Popper, por exemplo) torceram o significado de Ciência para se encaixar perfeitamente no que até então era crença.

    A ciência e a crença têm ambas o seu espaço no pensamento humano. Uma olha apenas para o passado. A outra olha apenas para o futuro. Então, elas não precisam conflitar. Por isso é da máxima importância desfazer esses enroscos conceituais e intelectuais.

    Abraços e até mais!

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